Frango com ora-pro-nóbis

Certo dia cheguei a casa e encontrei minha esposa toda entusiasmada com uma receita que fora apresentada em uma edição do programa Mundo da Alimentação que era exibido pela TV Senac, atual Sesc TV.

Dias depois assisti à matéria e conferi a receita de frango com ora-pro-nóbis. Ela era apresentada temperada com história e curiosidades sobre a vida e a culinária tipicamente mineira da cidade de Tiradentes.

Alguns anos depois visitamos aquela acolhedora cidade histórica e nos empenhamos em encontrar o restaurante que aparecera naquele documentário. Até conseguimos, mas infelizmente estava fechado e perdemos a oportunidade de provar este prato típico em sua mais perfeita acepção.

Segundo a lenda o nome ora-pro-nóbis seria uma corruptela de orai por nós e resultaria da prática de rezar a ladainha durante sua colheita.

Lendas a parte, trata-se de um vegetal rico em vitaminas e ferro cujas folhas são muito utilizadas em refogados e também no preparo de farinhas e temperos.

Quando meu vizinho me contou que havia conseguido uma muda da planta de pronto deixei-o avisado para me ceder algumas folhas tão logo surgisse a primeira florada (a planta dá flores que também são comestíveis).

Esta semana tive o privilégio de experimentar.

Com muita expectativa, abasteci-me de uma reserva de cachaça Maria da Cruz e encarei a tarefa.

Lavei as folhas muito verdes de ora-pro-nóbis, cortei fora o talo e reservei.

Algo que ouvi pela primeira vez neste mesmo programa de TV foi a prática mineira de tirar o mal da carne com cachaça. Tornou-se um hábito fazê-lo e não há preparo de carnes de frango ou porco que eu comece sem fazer isso. Há quem use limão, mas eu prefiro a cachaça e eventualmente um pouco de vinagre.

Fritei um pouco de bacon, dourei alho e cebola e refoguei 1 kg de carne de frango cortado em pequenos pedaços e temperado com sal.

Depois disso, baixei o fogo e acrescentei um tablete de caldo de galinha dissolvido em um copo de água, uma colher de vinagre, outra de shoyo e uma colher de colorau. Também acrescentei uma pimenta dedo de moça e meio pimentão vermelho picados.

Deixei cozinhando até engrossar o caldo e por fim acrescentei sobre o cozido, sem misturar, umas quarenta folhas de ora-pro-nóbis cortada em tiras grossas e tampei.

Deixei abafado em fogo baixo pelo tempo necessário para arrumar a mesa e servi com arroz branco e angu.

O prato ficou bonito e delicioso. É importante frisar que a verdura não deixou nenhum sabor marcante o que causou certa frustração.

Mas degustando, bastava fechar os olhos para lembrar das tardes preguiçosas nas históricas ruas de Tiradentes e desejar voltar para provar este prato na raiz e assim descobrir se minha versão pelo menos não envergonha muito a original.

Mais uma branquinha, brindo à oportunidade de voltar.

Tutu a mineira completo

Tutu a mineira completo

Ainda no rescaldo do friozinho que insiste em não ir embora, mais uma comidinha quente para companhar uma legítima mineira, a Sagarana. Ou seria o contrário ?

Como a ordem dos fatores não altera o produto, vamos a eles.

Levo ao forno médio as costelinhas de porco marinadas de véspera.

Coloco o feijão para cozinhar na pressão, o bastante para não ficar muito mole.

Lavo e fatio beeeem fininho a couve.

Também deixo picado alguns dentes de alho, uma cebola, uma pimenta dedo de moça, um pouco de bacon e o cheiro verde.

Acrescento também uma linguiça calabresa sem pele e cortada em rodelas.

Não faz parte da tradição, mas acrescento uma cenoura ralada pois acrescenta fibras e vitaminas.

Do feijão, já cozido, separo os grãos do caldo. Aqui o caldo transformaria o tutu em virado. Separado a tempo, rende um delicioso caldinho de feijão.

Numa panela wok (ou frigideira grande) começo a fritar a linguiça e o bacon. Nem é preciso acrescentar óleo pois a linguiça solta mais do que o próprio bacon.

Quando está quase no ponto acrescento o alho, depois a cebola e a pimenta.

Nesse ponto adiciono dois ovos mexidos.

Abro um espaço na panela e acrescento a couve picada. Jogo uma pitada de bicarbonato para não perder a cor.

Refogada a couve, acrescento a cenoura em seguida o feijão e finalmente a farinha de milho. Prefiro a flocada, a famosa biju, mas na falta vai a temperada mesmo.

Uma pitada de sal para arrematar, acrescento o cheiro verde e misturo tudo muito bem.

Servido com as costelinhas cuidadosamente arrumadas sobre o prato, acompanhado de arroz branco, salada e uma original gelada para arrematar.

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