Caldinho de feijão

Caldinho de feijão

Vai chegando o inverno, os dias tornando-se mais curtos, mãos e pés doloridos de frio, sensação de que o calor nunca vai voltar.

É quando nos recolhemos ao abrigo de nossos lares, buscamos o aconchego dos familiares e o calor de uma comida quente e reconfortante.

Por tudo isso um caldinho de feijão é uma excelente opção para o inverno. É algo rápido e muito fácil de fazer, que aproveita bem as sobras de outras refeições.

No liquidificador, aproveito o que sobrou do feijão e acrescento o mesmo volume de água. Pode ser o feijão comum ou até mesmo um restinho de feijoada. Todos ficam igualmente bons.

Bato tudo e transfiro para uma caneca.

Acrescento um toque de pimenta e uma dose generosa de cachaça e deixo cozinhando em fogo baixo até engrossar o caldo.

Coloco algumas fatias de bacon no microondas por dois minutos. Quando esfriam trituro com as mãos.

Sirvo o caldo numa caneca salpicado de bacon e salsinha, acompanhado de croutons e uma saborosa cachaça Caribé.

Tem quem goste do frio. Até pelas comidinhas de inverno.

Mas para mim o caldinho de feijão só aumenta a saudade do verão.

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Mortadela agridoce

Mortadela agridoce

Quando eu era criança, houve um breve tempo em que todos os dias comíamos mortadela com pão no almoço e sanduíche de pão com mortadela no jantar. Para variar, às vezes comíamos pão com mortadela frita.

Esse era um momento especial.

Parece piada, mas não é. E não posso dizer que seja um lembrança tão ruim assim.

Ainda hoje gosto de mortadela. Não como tão frequentemente como naqueles tempos imemoriais, mas volta e meia está lá:  ela, o pão e lembranças de montão.

Só que agora a mortadela vem embalada de um jeito, digamos assim, meio gourmet. Como nesta receita cuja inspiração me veio de supetão não sei bem de onde.

O principal ingrediente, evidente, são algumas fatias de mortadela de boa qualidade e procedência que ainda são cortadas em finas tirinhas.

Uso também cebola e cenoura em tirinhas. (Aqui um parênteses. Cortar em tirinhas é o mesmo que cortar à julienne, ou corte julienne. Mas se eu falo tirinhas tudo fica mais fácil de entender não é?)

Sem mais delongas, vamos ao preparo.

Numa frigideira douro alho em azeite, acrescento a mortadela e a cenoura mexendo ocasionalmente até ficarem al dente.

O sabor acre obtenho acrescentado vinagre balsâmico ou molho Worcestershire, o popular molho inglês. Reduzo o fogo ao mínimo.

Em outra frigideira derreto uma colher de manteiga em um fio de azeite para dourar a cebola. Então acrescento uma colher rasa de açúcar e misturo bem.

Quando começa a derreter adiciono uma dose de cachaça (preferencialmente, mas pode usar outro destilado na falta deste) para flambar.

Finalmente misturo com cuidado o conteúdo das duas frigideiras numa travessa, adiciono cheiro verde picado e está pronto.

Sirvo acompanhado de pão francês cortado em rodelas e cerveja bem gelada. Dou preferência para comer sem talheres, no melhor estilo botequim.

Com prática e tendo todos os ingredientes previamente preparados é possível fazer os dois ao mesmo tempo e servir bem quentinho.

Se um dia eu montar um boteco, vou acrescentar este petisco ao cardápio. Só não sei se vou resistir à tentação de chamá-lo de minhoca frita.

Calabresa acebolada

Calabresa acebolada

Talvez essa seja minha primeira e mais tradicional receita.

Ela é inspirada no cardápio do saudoso Bar do Baiano – O Rei das Batidas que tantas vezes frequentei em minha saudosa cidade natal: Londrina.

O bar, com suas mesinhas de fórmica e banquinhos, ficava nos fundos de um posto de gasolina no entroncamento das Avenidas J.K., Tirandentes, Rio Branco e Rua Quintino Bocaiúva.

O dono do posto era meu amigo e, supremo sacrilégio, pediu o ponto de volta obrigando o Baiano a mudar de endereço. Primeiro na rua Maringá, depois na Av. Higienópolis. A qualidade e o atendimento continuaram os mesmos, mas a aura de magia que envolvia aquele lugar rústico e despojado se perdeu para sempre.

O Baiano, que na verdade é um japonês bonachão e ferrenho corinthiano, tinha um cardápio com os mais tradicionais pratos da culinária de botequim.

Tinha o bolinho de bacalhau (com bacalhau de verdade), o charque acebolado, o filé ao molho, e vários outros pratos sempre acompanhados de batidinhas de frutas que faziam a alegria das mulheres e GELAAAADAS Antarcticas faixa azul como não se encontram mais.

Foi de lá de carreguei com saudades essa receita de linguiça calabresa acebolada que sempre fiz questão de acompanhar com fatias de pão francês, molho de pimenta e cervejas (no plural).

Para o preparo, uso calabresas daquelas embaladas a vácuo que se encontram na seção de embutidos no supermercado.

Removo a pele e fatio em rodelas não muito grossas.

Numa frigideira grande refogo, com pouco azeite, bacon e alho. Acrescento a linguiça. Particularmente não acrescento óleo pois a calabresa solta muito óleo sendo necessário, às vezes, retirar o excesso. Também não acrescento sal pois embutidos são ricos em sódio.

Quando fritas, acrescento uma cebola média cortada em meia lua, um tomate picado, lascas de cenoura, cheiro verde e uma dose de molho de soja (shoyo).

Pode-se comer o petisco com fatias de pão como suporte, palitinhos ou até no prato. Seja como for, é de se lamber dos dedos…

Misturê de lombinho

misturê_de_lombinho

Finalmente, depois de muito tempo, suor e sofrimento, descobri para que serve academia.

Academia serve para nos fazer chegar em casa com muita sede… (cerveja gelada!) e fome (o que vier a gente traça!).

Mas por sorte a cerveja estava acondicionada em refrescantes  latinhas de bohemia, não aquelas produzidas em Lages/SC que são aguadas e sem sabor, mas daquelas que vem de Jaguariúna/SP.

Com a sede sob controle, resta combater a fome. Nessas horas em que a natureza pede proteína e calorias, nada melhor que um delicioso Misturê de Restô, ou seja, juntar tudo que encontrar pela frente e fazer um delicioso prato quente.

E o ingrediente principal que estava à mão era um pedaço de lombo assado que foi providencialmente desfiado.

Depois foi só dourar bacon, alho e finas pétalas de cebola  no azeite, acrescentar uma colher de manteiga e a carne desfiada.

Depois um pimentão americano e um tomate cortados em tirinhas e um salpicado de ervas desidratadas.

Para finalizar alguns cubos de queijo gorgonzola e meia dose de cachaça, flambados para fazer o queijo ceder.

Então, restou-me servir com fatias de pão e mais uma bohemia, que fazer isso deu uma sede …

Prá mi acabiá na cabotiá

Sabe quando dá aquela vontade de comer um ´trem´ diferente, aquela salivação que a gente não sabe como acalmar.

Pois foi num dias desses que arrisquei essa receita que já tinha visto, mas não tinha provado.

Uma mistura de tradições, uma miscigenação de sabores, um ´escondidinho´ de carne seca com a abóbora japonesa.

Um espetáculo gastronômico que poderia se chamar: Apenas um prato brasileiro

Primeiro personagem: A cabotiá

Não poderia ser uma abóbora qualquer, era preciso uma evolução da espécie. Um híbrido, resultado do cruzamento da abóbora comum com a moranga. A cabotiá, também conhecida como abóbora japonesa, mas que se tem algum pé nas terras orientais ninguém sabe precisar com certeza.

Pequena, feia, escura, casca grossa mas de ´alma´ doce e macia.

Segundo personagem: O charque

Carne seca, de dianteiro que é mais macia e tem menos gordura. Daquela comprada em pacotinhos no supermercado que ficam vermelhinhas quando prontas.

Primeiro ato: O purê

A cabotiá foi picada e cozida lentamente. Acabou reduzida a um creme sedoso e não muito espesso. Fiquei tentado a acrescentar creme de leite ou requeijão, mas a massa estava com uma consistência tão boa que apenas adicionei uma pitada de sal. Reservei, de véspera que era para deixar a vontade aumentar ainda mais.

Segundo ato: O refogado

O charque foi dessalgado e fervido. Depois que esfriou desfiei toda a carne e refoguei no azeite com cebola, alho, cenoura ralada, cheiro verde, pimenta dedo de moça.

Terceiro ato: Gratinando

Numa travessa untada com azeite alternei uma camada do purê de cabotiá, uma camada de carne seca refogada, outra de purê finalizando com queijo parmesão ralado grosso alguns ramos de cheiro verde e cebola vermelha picada. No forno até gratinar e ganhar aquele aspecto tentador.

O clímax: Prá mi acabia na cabotiá

Leve e denso. Creme e consistência. Doce com salgado. Brasileiro com japonês. Diferentes mas inseparáveis.

Guarnecido por tortilhas de milho, torradas, azeite e molho de pimenta, acompanhado de uma cerveja Guiness estúpidamente gelada, este prato foi uma overdose de sabores e sensações.

Um brinde à miscigenação. Banzai !

Bêbado, só o frango.

 

Frango bêbado

Frango é veículo !

Como disse um personagem no filme Matrix, quando resolveram programar o sabor de frango, não sabiam qual era, conclusão frango não tem gosto de nada!

Ou melhor, frango tem gosto daquilo que se incorpora ao preparo do frango.

Frango é veículo, suporte, do sabor.

Nesse caso, o sabor do bacon e da cerveja.

O medalhão de frango que se encontra em bares e restaurante é frito. E frango frito, regra geral, tende a ficar muito seco.

Esse frango bêbado, ao contrário é assado. Além de mais saudável (com bacon sim senhor) ele fica mais “molhadinho” (entende) !

Então vamos a ele:

Um peito de frango (mas pode ser tanto quanto você deseje preparar) picado em pedaços não muito grandes.

Fatias de bacon que bastem para envolver o frango. Eu não envolvo completamente. Deixo a parte de baixo do frango “a descoberto”.

O frango deve estar temperado com sal, pimenta e alho, pelo menos 30 minutos antes de começar a envolvê-lo com bacon. Isso faz com que o sabor penetre um pouco mais no veículo.

DICA: Antes de temperar o frango, tire o “mal” da carne, ou seja, regue o frango com cachaça, vinagre ou suco de limão, e deixe descansar por uns 10 minutos. Isso livra a carne da viscosidade natural dela.

À medida que prender o bacon à carne com um palito de dentes, vá acondicionando numa refratária.

Pré-aqueça o forno por 20 minutos, regue os medalhões com cerveja até que eles fiquem com metade de sua altura coberta.

Leve ao forno até secar toda a cerveja. Mas antes disso, vire (isso dá trabalho) pedacinho por pedacinho quando estiverem dourados na superfície, para que a parte inferior fique dourada também.

Sirva acompanhado de um molho tártaro, um molho rosé (duas partes de maionese, uma de catchup, uma de mostarda, uma pitada de sal. uma de pimenta do reino e uma de noz moscada) e um molho de pimenta que não pode faltar.

Uma dose de Claudionor e muitas cervejinhas a mais e pronto, vira banquete !

Mostre-me tudo, não me esconda nada !

Escondidinho

Prato típico da culinária botequeira, é difícil afirmar de onde vêm esta delícia que entope nossas veias.

Uns dizem que é pernambucana pois contém carne seca, outros afirmam que veio do ceará pois é feita com macaxeira (a nossa popular mandioca), alguns afirmam que é mineira pois leva queijo, enquanto uns tantos outros dizem que é gaúcha pois tem tudo isso na receita.

Paternidades a parte (vixe) o que importa é que ela se espalhou pelas cozinhas do país inteiro carregando um forte sotaque nordestino e é apreciada, sem preconceitos, por todos.

Por conta de sua popularização encontra-se uma grande variedade de receitas. Temos escondidinhos de bacalhau, camarão, frango, carne moída, carnes nobres, vegetariana e sabe-se lá mais o que vão inventar.

Isso é bom, mas está ficando até difícil de encontrar um legítimo escondidinho de carne seca.

Fazer até que não é difícil, mas dá um pouco de trabalho pois são várias etapas que se complementam. O bom é que este prato pode facilmente ser feito de véspera sem perder a qualidade.

E foi justamente por conta desta qualidade muito prática que esta receita se materializou.

Claro que optei pelo caminho mais fácil, embora não tão saboroso – substituir a mandioca pela batata. Primeiro porque, infelizmente, há épocas em que encontrar mandioca que cozinhe é tarefa digna de semi-deus, mas principalmente porque batata eu tinha em casa, mandioca não.

Então vamos mostrar o que se esconde por baixo de uma suculenta camada de queijo gratinado.

Cozinhei um pouco mais de meio quilo de batatas em vapor, devidamente picadas e descascadas que é para não aguar demais e também não perder nutrientes.

Lavo a carne seca em água quente para retirar o excesso de sal e coloco na panela de pressão para amolecer.

Como agora é preciso esperar, tomo a corajosa decisão de enfrentar tão nobre empreitada ao lado de uma uma companhia a altura do desafio. E me espera, pronta para qualquer sacrifício, uma deliciosa cachaça mineira de nome europeu – a Germana.

Aproveito que as panelas por enquanto podem trabalhar sem intervenção e vou preparando os acessórios.

Para a carne, pico uma colher de bacon, fatio dois dentes de alho, uma cebola grande, ralo uma cenoura, e deixo picado cheiro verde que baste. No meu caso cheiro verde nunca é demais, dfatio dois dentes de alho, modo que é o que sempre leva mais tempo.

Por último, lambuzo os dedos com óleo e pico uma pimenta dedo de moça, sem sementes. Untar os dedos com óleo é uma dica para evitar ficar com os dedos “picantes”.

A carne seca, já cozida, desfio completamente.

É nessas horas que a gente descobre que nada é melhor que a experiência. Quando precisamos desfiar carne seca é que entendemos os cuidados que temos que ter na hora de comprar. Para uma prato como esse por exemplo é melhor que seja charque de dianteiro, com pouca gordura e pedaços de tamanho uniforme. Tudo isso facilita na hora de desfiar.

Nesse ponto dei uma gelada na germana e preferi a companhia de uma cerveja gelada. Afinal, foi trabalho para uma hora diante de uma TV aberta que insiste em mostrar porcaria nenhuma.

Carne desfiada, acendo o fogo, aqueço a panela com óleo e uma colher de manteiga e vou acrescentando e dourando todos os ingredientes reservados para a carne e refogo a carne seca deixando-a bem suculenta.

À batata amassada acrescento um pote de requeijão cremoso e misturo bem. Aos poucos vou acrescentando também creme de leite até obter uma massa lisa e cremosa.

Unto com azeite uma forma refratária uns 30 centímetros e coloco uma camada deste purê. Adiciono uma camada com a carne refogada que sobrou (pois estou degustando sem cerimônia juntamente com a germana que, a esta altura, já voltou para a refrega). Cubro com outra camada do purê que ainda resta e salpico uma generosa camada de queijo parmesão ralado.

No meu caso, ainda demorou um dia para degustar essa delícia, e é bom não ter pressa, é preciso pré-aquecer o forno por 10 minutos, colocar a travessa e deixar outros 20 minutos ou até dourar.

Mais uma germana, um molho de pimenta para acompanhar e uma boa cerveja de trigo para arrematar…

Ahhhh, os prazeres da revelação !

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