Escondidinho, bem escondidinho …

20171016_220445

Eu queria…

Juro, do fundo do coração, eu queria.

Ser daqueles que saem do trabalho pensando: – Eu quero ir pra academia e comer granola, eu quero ir pra academia e comer granola.

Mas o Tico fala pro Teco: – Eu quero tomar cerveja. E o Teco responde: – Comendo pastel.

Então, qual Ulisses superando sua jornada; qual Hércules cumprindo seus doze trabalhos, visto meu tênis e vou para a academia.

Milhares, milhões, incontáveis supinos, tríceps e agachamentos depois, me encontro prostrado e faminto.

Evito pensar que meu abdômen se tornou a morada de Cérbero e que meus míseros músculos estão sendo devorados pelas cabeças de Hidra.

Ansioso por aplacar a ira dos deuses, me entrego a mais um trabalho: trazer à luz um escondidinho de carne moída com batatas, último recurso que a geladeira reserva a este pobre mortal.

Minha amada rainha, antecipando minha agonia, cozinhou as batatas e descongelou a carne.

Munido de ungidas armas, piquei o alho a cebola e o bacon que, oprimidos pelo fogo redentor, serviram de base para que a carne moída alcançasse seu esplendor.

As batatas, esmagadas pela força deste semideus, foram ungidas por fartas colheres de requeijão e temperadas com pimenta e noz-moscada.

Em camadas, depositei o fruto de árduo trabalho: purê de batatas, fatias de queijo, carne temperada, mais purê e uma generosa dose de parmesão.

Em último sacrifício, aguardei que gratinassem em forno brando enquanto recuperava o fôlego de exasperado esforço sorvendo com sofreguidão o néctar dos deuses que os pobres mortais ousam chamar de “cerveja gelada”.

Posta a iguaria bem servida, pôde este pobre mortal, sentado no trono ao lado de sua amada rainha, recuperar suas forças para ousar, quem sabe, de novo enfrentar de novo o desafio: – ir amanhã à academia.

Anúncios

Caldinho de moqueca

Caldinho de moqueca

Fazendo jus ao melhor espírito restô, eu não poderia admitir que uma generosa porção de moqueca de cação com camarões fosse desperdiçada.

E como não mais me apetecia prová-la à moda original “resta” a reciclagem, que nesse caso, é muito sutil.

Reservei uma pequena porção da moqueca.

Levei ao liquidificador a maior parte e acrescentei:

  • o dobro do volume de água;
  • uma dose de cachaça,
  • uma porção pequena de cheiro verde,
  • uma pitada de sal (lembrando que a moqueca já estava temperada).

Levei a mistura ao fogo brando, acrescentei a parte reservada da moqueca e, mexendo sempre para não grudar, deixei ferver por alguns minutos. Tempo suficiente para esquentar e evaporar o álcool da cachaça.

Servi com cheiro verde e pimenta dedo de moça picadinhos acompanhado de fatias de pão.

E como adoro pimenta, não recusei ainda algumas gotas de tabasco.

Simples, fácil, gostoso e aconchegante para essas noites de primavera que insistem em não esquentar.

Não sobrou, é claro, mas enquanto me desfazia das últimas colheres imaginei que cozinhando com farinha de mandioca branca, esse caldinho ainda rendia um pirão.

Moqueca de peixe

Moqueca de peixe

Eu considero a TV Pirata, programa de humor que foi ao ar na Rede Globo entre 1988 e 1980, um dos melhores programas do gênero que já foram exibidos.

Algumas piadas, esquetes (do inglês sketch), estão tão impregnadas em minha memória que qualquer coisa é capaz de evocá-las.

Uma delas é a C.M.A.

Nunca mais vou comer moqueca de peixe sem me lembrar da interpretação do ator Luiz Fernando Guimarães travestido de baiano.

Mas eu me rendo, desisto. Não consigo ficar um ANO sem comer moqueca, (porque um dia também é demais).

Lá em casa todo mundo gosta, mas só eu sou candidato ao C.M.A.

Se aviso que vou fazer, todo mundo encontra uma desculpa para adiar.

Então, vou comprando tudo devagarinho, pimentões aqui, azeite de dendê dali, leite de coco acolá.

Ninguém percebe que estou alimentando esse “vício”.

Finalmente dou o bote, compro o peixe e o coentro e quando veem já estou preparando.

E é tão fácil que dá até preguiça de explicar.

Faço duas camadas na seguinte ordem:

  • cebolas em rodelas;
  • peixe (usei filé de cação, mas você pode mudar);
  • tomate em rodelas;
  • pimentão vermelho e amarelo em rodelas.

Depois, cubro com camarões, cheiro verde e coentro picados.

À parte, dissolvi um sachet (ou tablete) de caldo de legumes em 200 ml de leite de coco. Acrescentei sal e pimenta e derramei sobre as camadas.

Levei ao fogo baixo e deixei levantar fervura. E produz bastante caldo.

Depois de meia hora acrescentnei duas colheres de azeite de dendê.

Ali ficou, cozinhando pouco mais de uma hora até que o caldo fosse reduzido à metade.

Pronto. Servido com arroz branco e uma cachaçinha envelhecida.

Moqueca na panela

Não adianta, ainda vai levar um bom tempo para eu me juntar ao C.M.A.

Quer entender do que estou falando ? Quem sabe você ainda consegue seguir o link: http://youtu.be/LKoe01Yi5pk

Pão italiano recheado

Pão Italiano

Em um incerto fim de tarde, estava eu tranquilo quando toca o telefone.

Elétrico, como sempre que tomado de euforia, Beto falava: – “Vem cá no muro”.

Vizinho, compadre e amigo a gente não questiona, obedece.

E vinha ele com mais uma criação culinária construída sobre o tripé do sucesso: disponibilidade x necessidade x fome.

Aprendi com ele a transformar um pão italiano num requisitado prato divertido e saboroso.

Quando ele o fez pela primeira vez, a linguiça sobressaltava de tal modo que nos era impossível lembrar se havia outra coisa naquela receita.

Mas o tempo foi seguindo, a receita se repetindo, e novos elementos surgindo foram construindo variações que hoje alcançam um novo padrão de excelência.

E seja ela como for, sempre fazendo jus ao meu amigo criador.

Um pão de tamanho que baste serve de recipiente para o recheio.

Esse pode ser do que houver ou lhe aprouver.

Nesse caso, uma linguiça blumenau ou colonial de porco, desfiada e um maço de escarola se combinam.

Douro um pouco de cebola e alho no bacon e acrescento a linguiça.

Refogo rapidamente, acrescento uma dose de aguardente e flambo.

Assim que o fogo acaba, incorporo a escarola cortada em tiras e garanto que toda ela refogue, sem passar do ponto.

O interior do pão italiano, já sem a coroa e o miolo, forro com fatias de mussarela.

Usando um pegador de macarrão ou de salada, vou preenchendo o pão com o recheio de linguiça com escarola. O interessante é descartar o excesso de líquido pois isso deixaria o pão encharcado.

Quando completo, acrescento mais um pouco de mussarela e fecho o pão com sua coroa vedando com parmesão ralado.

Levo o pão ao forno pré aquecido por vinte minutos e está pronto.

Beto Belini, meu compadre vizinho, que provou e elogiou esta receita adaptada, nunca reivindicou a autoria. Nunca se arrogou ser o autor desta ou de outra criação. Esse é seu espírito gentil, caridoso, amigo e fraterno.

Ele e eu sabemos que em maior ou menor grau, todos nós já chegamos ao ponto em que nada se cria, tudo (em algum grau) se copia. E isso já dizia Chacrinha.

Essa receita, é apenas uma que aprendemos juntos a fazer e degustar em família.

Outras tantas apenas provei pensando que sempre haveria tempo de aprender.

Não há. O tempo é agora. O amanhã não existe.

Então faço agora com prazer, para saciar a fome e a saudade do bom amigo que doravante só pode provar a alegria.

Provo, com um fio de azeite e uma taça de vinho branco.

Udon

Udon

O friozinho não é muito mas já se faz presente.

Então chega sexta-feira, eu e minha amada sozinhos, falta vontade de fazer muita coisa e sobra vontade de comer algo especial, de preferência quente.

Antes do cair da noite visito o mercado antecipando as compras da semana e vou ponderando como fazer de uma noite comum um momento especial.

Pensando em um yakisoba padrão para o almoço de sábado, me vejo caminhando pelos corredores e lembrando do tempo em que morávamos em Cuiabá e saíamos rumo a Várzea Grande onde em algumas noites se organizavam feiras livres. Numa delas conhecemos um idoso casal de japoneses que serviam um inesquecível Udon.

Casais japoneses são herméticos, você é incapaz de dizer o que habita sob aquela superfície de polidez. Mas aqueles dois sempre me inspiraram um carinho e cumplicidade que se materializava naquele singelo prato da culinária nipônica.

Provei várias versões ao longo dos anos, mas nunca esqueci aquele que nos acompanhava em nossos primeiros momentos de felicidade conjugal.

E hoje, quase vinte e cinco anos depois, tomei coragem e enfrentei o desafio (insipiente bem sei) de preparar um Udon para dois.

Todos os ingredientes a postos, comecei colocando uma panela com um litro de água no fogo. Quando levantou fervura, desliguei e coloquei duas folhas picadas de nori (aquela alga que se usa para fazer sushi). Deixei alguns minutos, retirei as folhas e reservei.

Acrescentei ao caldo um saquinho de Hondashi, quatro colheres de shoyo e outras tantas de saquê. Para acrescentar um toque pessoal, inclui um preparado instantâneo de missoshiro (você compra todos os ingredientes por esses nomes nas melhores lojas do ramo). Sei que não é a receita original, mas na falta de coisa mais apropriada a gente tem que improvisar. Afinal, o mais importante é um caldo quente com toque oriental para uma fria noite de outono ocidental.

Em paralelo, coloquei dois litros de água em outra panela para ferver o macarrão. Na falta de macarrão próprio para Udon, usei o macarrão “Assai Somen” que é mais fino e exige mais cuidado para não desandar.

Enquanto a água esquentava preparei o omelete. Usei quatro ovos, mas bati um de cada vez temperado com uma pitada de sal, aji e açúcar. Fritei individualmente para obter folhas finas de omelete, como se fossem panquecas.

Quando a água ferveu coloquei o macarrão, apenas 250 gramas. Mexi bem e deixei cozinhar por três minutos. Foi o tempo suficiente para cortar as quatro “panquecas” de ovo em pequenas tiras.

O macarrão foi escorrido e lavado em água fria. Reservei.

Lavei um maço de cebolinha e piquei.

Quando o caldo (dashi, com alguma liberdade) ferveu foi só chamar minha companheira para jantar.

Brilhantemente ela lascou pequenas tiras de gengibre para colocar no fundo da tigela que foi coberta com macarrão, as folhas hidratadas de alga (nori), o caldo (dashi), omelete e cebolinhas.

Não ficou melhor que o que fazem nossos amigos Cláudio e Regina. Tampouco fez jus ao dedicado trabalho daquele amável casal que provavelmente já habita o andar superior dessa existência.

Mas nos aqueceu, foi um jantar diferente que fez lembrar que coisas boas são feitas com amor, carinho e dedicação. São coisas simples que possuem valor inestimável, como a lembrança daquele idoso casal que parecia não precisar daquele trabalho para viver, mas escolheu viver daquele trabalho para tocar a vida de pessoas como nós.

De modo singelo, deixaram uma inesquecível mensagem de amor depositada em cada tigela de macarrão que serviram.

Que o cara lá de cima dê uma abraço caloroso a eles por nós.

Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

4,329 films were submitted to the 2012 Cannes Film Festival. This blog had 31.000 views in 2012. If each view were a film, this blog would power 7 Film Festivals

Clique aqui para ver o relatório completo

Cheese salada

Cheese Salada

 

A foto é linda, uma perfeição delicadamente equilibrada para aguçar os sentidos. Sua boca saliva e sua estômago começa a roncar.

Vontade de comer um hambúrguer macio e suculento.

Cedo ou tarde você passa por isso.

Seja na TV, internet, outdoors ou em cartazes de lanchonetes espalhadas por este país, você vai ver a foto do sanduíche perfeito e irresistível.

Então você pede e vem aquela coisa disforme, engordurada, cinza e sem sabor.

Nestas horas você se identifica com William Foster, personagem de Michael Douglas no filme “Um dia de Fúria” e fica com vontade de jogar tudo para o alto.

Talvez por isso uma certa cadeia de fast-food especializada em hambúrgueres utilize um palhaço como garoto propaganda. É para evitar que você perceba que o palhaço é você.

Há exceções é claro.

Os hambúrgueres do restaurante Madero do chef Junior Durski, em Curitiba e além, escondem um rico sabor por trás de uma apresentação simples.

Com opções variadas, o Cadilac em Cascavel também agrada a paladares mais exigentes.

Ambos são confeccionados com hambúrgueres encorpados e grelhados em carvão em brasa. Isso, por si, já faz uma diferença enorme.

Mas a maioria das opções que se encontram são flagrantemente sofríveis e pouco saudáveis.

Por isso, depois de tanta frustração resolvi fazer meus próprios hambúrgueres. Pelo menos assim não me sinto enganado.

Com 300 gramas de carne moída de primeira (com pouca gordura) consigo preparar três porções generosas.

Em uma tigela coloco uma cebola pequena, uma colher de sopa de bacon e cheiro verde, tudo bem picadinho.

Adiciono a carne moída e um pacote de creme de cebola.

Misturo tudo e reservo na geladeira por vinte minutos.

Enquanto isso preparo os demais ingredientes: salada, molhos, queijos e o que mais a imaginação desejar colocar entre as metades de um pão macio.

Levo a grelha de ferro fundido que direto ao fogão e deixo aquecer em fogo baixo. Já preparei em churrasqueira usando carvão e fica excepcional, mas demora.

Separo a carne em três partes, modelo o hambúrguer com as mãos e vou colocando na grelha untada.

Deixo dourar de um lado e viro.

É a hora para quem gosta do queijo fundido ou do presunto aquecido acrescentar as fatias sobre o hambúrguer Também é a hora de fritar fatias de bacon.

Dessa vez optei por um simples cheese salada.

Aliás é interessante como a criatividade do povo brasileiro incorporou o hambúrguer

Por aí se vê X-isso, X-aquilo, X-tudo. Já ouvi a seguinte explanação de um atendente de lanchonete: – ” No X-bacon, O x é a incógnita que admite a inclusão de qualquer ingrediente para acompanhar a constante que no caso é o bacon.” – PERFEITO ! Nem Einstein explicaria tão bem.

Mas voltando à minha fome, monto meu lanche com uma fina camada de maionese, queijo mussarela, o hambúrguer, tomate, alface e finalizo com um fio de mostarda.

Sanduíche honesto e sem enganação,
que eu não sou palhaço não !

Entradas Mais Antigas Anteriores

%d blogueiros gostam disto: