Udon

Udon

O friozinho não é muito mas já se faz presente.

Então chega sexta-feira, eu e minha amada sozinhos, falta vontade de fazer muita coisa e sobra vontade de comer algo especial, de preferência quente.

Antes do cair da noite visito o mercado antecipando as compras da semana e vou ponderando como fazer de uma noite comum um momento especial.

Pensando em um yakisoba padrão para o almoço de sábado, me vejo caminhando pelos corredores e lembrando do tempo em que morávamos em Cuiabá e saíamos rumo a Várzea Grande onde em algumas noites se organizavam feiras livres. Numa delas conhecemos um idoso casal de japoneses que serviam um inesquecível Udon.

Casais japoneses são herméticos, você é incapaz de dizer o que habita sob aquela superfície de polidez. Mas aqueles dois sempre me inspiraram um carinho e cumplicidade que se materializava naquele singelo prato da culinária nipônica.

Provei várias versões ao longo dos anos, mas nunca esqueci aquele que nos acompanhava em nossos primeiros momentos de felicidade conjugal.

E hoje, quase vinte e cinco anos depois, tomei coragem e enfrentei o desafio (insipiente bem sei) de preparar um Udon para dois.

Todos os ingredientes a postos, comecei colocando uma panela com um litro de água no fogo. Quando levantou fervura, desliguei e coloquei duas folhas picadas de nori (aquela alga que se usa para fazer sushi). Deixei alguns minutos, retirei as folhas e reservei.

Acrescentei ao caldo um saquinho de Hondashi, quatro colheres de shoyo e outras tantas de saquê. Para acrescentar um toque pessoal, inclui um preparado instantâneo de missoshiro (você compra todos os ingredientes por esses nomes nas melhores lojas do ramo). Sei que não é a receita original, mas na falta de coisa mais apropriada a gente tem que improvisar. Afinal, o mais importante é um caldo quente com toque oriental para uma fria noite de outono ocidental.

Em paralelo, coloquei dois litros de água em outra panela para ferver o macarrão. Na falta de macarrão próprio para Udon, usei o macarrão “Assai Somen” que é mais fino e exige mais cuidado para não desandar.

Enquanto a água esquentava preparei o omelete. Usei quatro ovos, mas bati um de cada vez temperado com uma pitada de sal, aji e açúcar. Fritei individualmente para obter folhas finas de omelete, como se fossem panquecas.

Quando a água ferveu coloquei o macarrão, apenas 250 gramas. Mexi bem e deixei cozinhar por três minutos. Foi o tempo suficiente para cortar as quatro “panquecas” de ovo em pequenas tiras.

O macarrão foi escorrido e lavado em água fria. Reservei.

Lavei um maço de cebolinha e piquei.

Quando o caldo (dashi, com alguma liberdade) ferveu foi só chamar minha companheira para jantar.

Brilhantemente ela lascou pequenas tiras de gengibre para colocar no fundo da tigela que foi coberta com macarrão, as folhas hidratadas de alga (nori), o caldo (dashi), omelete e cebolinhas.

Não ficou melhor que o que fazem nossos amigos Cláudio e Regina. Tampouco fez jus ao dedicado trabalho daquele amável casal que provavelmente já habita o andar superior dessa existência.

Mas nos aqueceu, foi um jantar diferente que fez lembrar que coisas boas são feitas com amor, carinho e dedicação. São coisas simples que possuem valor inestimável, como a lembrança daquele idoso casal que parecia não precisar daquele trabalho para viver, mas escolheu viver daquele trabalho para tocar a vida de pessoas como nós.

De modo singelo, deixaram uma inesquecível mensagem de amor depositada em cada tigela de macarrão que serviram.

Que o cara lá de cima dê uma abraço caloroso a eles por nós.

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