Prá mi acabiá na cabotiá

Sabe quando dá aquela vontade de comer um ´trem´ diferente, aquela salivação que a gente não sabe como acalmar.

Pois foi num dias desses que arrisquei essa receita que já tinha visto, mas não tinha provado.

Uma mistura de tradições, uma miscigenação de sabores, um ´escondidinho´ de carne seca com a abóbora japonesa.

Um espetáculo gastronômico que poderia se chamar: Apenas um prato brasileiro

Primeiro personagem: A cabotiá

Não poderia ser uma abóbora qualquer, era preciso uma evolução da espécie. Um híbrido, resultado do cruzamento da abóbora comum com a moranga. A cabotiá, também conhecida como abóbora japonesa, mas que se tem algum pé nas terras orientais ninguém sabe precisar com certeza.

Pequena, feia, escura, casca grossa mas de ´alma´ doce e macia.

Segundo personagem: O charque

Carne seca, de dianteiro que é mais macia e tem menos gordura. Daquela comprada em pacotinhos no supermercado que ficam vermelhinhas quando prontas.

Primeiro ato: O purê

A cabotiá foi picada e cozida lentamente. Acabou reduzida a um creme sedoso e não muito espesso. Fiquei tentado a acrescentar creme de leite ou requeijão, mas a massa estava com uma consistência tão boa que apenas adicionei uma pitada de sal. Reservei, de véspera que era para deixar a vontade aumentar ainda mais.

Segundo ato: O refogado

O charque foi dessalgado e fervido. Depois que esfriou desfiei toda a carne e refoguei no azeite com cebola, alho, cenoura ralada, cheiro verde, pimenta dedo de moça.

Terceiro ato: Gratinando

Numa travessa untada com azeite alternei uma camada do purê de cabotiá, uma camada de carne seca refogada, outra de purê finalizando com queijo parmesão ralado grosso alguns ramos de cheiro verde e cebola vermelha picada. No forno até gratinar e ganhar aquele aspecto tentador.

O clímax: Prá mi acabia na cabotiá

Leve e denso. Creme e consistência. Doce com salgado. Brasileiro com japonês. Diferentes mas inseparáveis.

Guarnecido por tortilhas de milho, torradas, azeite e molho de pimenta, acompanhado de uma cerveja Guiness estúpidamente gelada, este prato foi uma overdose de sabores e sensações.

Um brinde à miscigenação. Banzai !

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Conchinhas gostosinhas

Conchiglione de peixe

Conchiglione é aquela pasta de grano duro importado em forma de conchas.

E conchas lembram naturalmente frutos do mar. Peixe, para ser mais preciso.

Com exceção de camarão, qualquer outro ingrediente seria difícil de ser encontrado e mesmo assim viria congelado, perdendo muito do sabor original.

Para o presente desafio escolhi tilápia, peixe de carne saborosa, acessível, fácil de encontrar e que aceita bem qualquer tempero.

Também reservei pimentões verdes, vermelhos e amarelos, cebola, cheiro verde, cenoura, queijo parmesão ralado grosso e ingredientes para o molho bechamel.

Evidentemente não podia faltar um bom vinho para acompanhar. Um branco bem gelado cairia muito bem, mas escolhi um pinot noir pois estava muito frio.

Vinho aberto, respirando, rego os filés de peixe com um pouco de limão e cachaça e deixo descansar pelo tempo que a massa demorar para cozinhar.

Encho a taça, cinco minutos.
Esvazio a taça, vinte minutos.

A massa ”al dente”, reservo numa travessa untada com azeite.

Escorro o peixe para eliminar a umidade.

Depois de lavados, fatio em tiras bem finas os pimentões a cenoura e a cebola. Pico também o alho e o cheiro verde.

Como os filés ainda estão muito úmidos, seco-os com papel toalha antes de salpicá-los com sal e pimenta do reino.

Numa frigideira aqueço um pouco de azeite e manteiga, coloco um ramo de alecrim para dar um cheirinho e douro os filés.

Algumas taças de vinho superadas a mão está firme o bastante para começar a parte mais delicada e trabalhosa.

Pré-aqueço o forno em temperatura mínima, preparando-o para receber o prato e também para deixar a cozinha quentinha.

Preencho as conchas com pedaços de filé, tiras de pimentão e cenoura que depois de recheadas voltam para a assadeira, devidamente acomodadas.

Desligo o forno e acomodo ali a assadeira.

Numa panela preparo o molho bechamel (manteiga, farinha de trigo e leite).

Na mesma frigideira em que dourei os filés, acrescento um pouco de azeite e manteiga e refogo a cebola, uns pedaços de pimentão que sobraram, uma pitada de sal.

Outra taça de vinho. Se fosse branco acrescentaria um tantinho dele no refogado, mas dessa vez fica sem. Vou ter que repetir isso numa noite quente de verão.

Refogado no ponto, acrescento o molho bechamel, salpico cheiro verde, mexo bem e derramo sobre os conchigliones. Salpico o queijo ralado e retorno ao forno para gratinar.

Encho a taça, cinco minutos.
Já é hora de abrir outra garrafa para respirar.
Esvazio a taça, vinte minutos.
Aquelas conchinhas não perdem por esperar.

No Rio, de bafo pro ar…

Filé aranha

Uma semana no Rio de Janeiro, que continua lindo, com direito a evacuação policial do hotel por conta de roubo de jóias. Vão-se os anéis, mas ficam as boas lembranças.

Clima temperado (tempo quente + chope gelado) enquanto o sul é paralisado pela maior nevasca dos últimos 20 anos. Dessa eu escapei, por pouco…

E para celebrar essa redescoberta da cidade maravilhosa desfrutei de um delicioso Filé à Osvaldo Aranha. Este, mais folclórico do que típico, prato da culinária carioca é perfeito para se provar no auge da solidão conjugal.

Este prato, completado com arroz, farofa e batatas portuguesas, é uma receita cultivada desde que pelos arcos da lapa caminhava serelepe o gaúcho Osvaldo Aranha. Depois de articular o posto de comandante da nação para Getúlio Vargas nos anos 1930 ele foi ocupar os cargos de Ministro da Justiça, da Fazenda e de Embaixador em Washington.

Segundo consta, traçava este prato todos os dias e derrotava, no bafo (digo no papo), qualquer adversário.

Isso porque o detalhe que o diferencia é a abundante presença em sua receita de denteS de alho (com friso no plural).

De volta ao ninho, com a cumplicidade da parte, ensaiei uma versão rudimentar. Lá estava um belo filé mignon dourado na manteiga e azeite. Também a generosa presença de alho e cebola.

Mas confesso que se não deixou a desejar em sabor, está longe de fazer juz ao original. O que faltou? Provavelmente 80 anos de história.

Em minha humilde versão, pode ser que tenham faltado os acompanhamentos. No Cosmopolita, estava guarnecido por fartas garrafas da Loira Devassa.

Aqui só havia uma minguada garrafa de Norteña.

Motivos suficientes para repetir outras tantas vezes, sem moderação.

Cumê tatu é bão

Mignon ao molho madeira

A primeira vez que fiz este prato já me grudou nos ouvidos a música dos Mamonas Assassinas.

Claro que não é carne de tatu, mas a semelhança com o casco do bichinho não me deixava esquecer a melodia.

É uma peça inteira de filé mignon temperada com alecrim, tomilho e sal, recoberta de fatias de bacon e assada sobre uma camada de cebolas fatiadas em rodelas.

Na primeira vez que preparei esta receita, ela foi servida ao molho de mostarda. Ficou excepcional (pena que não registrei em fotos) principalmente porque o molho estava suave e saboroso.

Dessa feita, optei por servir o “tatu” ao molho madeira (obviamente caseiro) enriquecido com champignhon, tomates pelados e cheiro verde.

Acompanhado de salada e arroz branco e um cabernet reserva Santa Helena.

Afinal, depois da patacoada da Ferrari, a última coisa que eu querer na minha mesa era MASSA !

Orient Express

Orient express

Comida oriental não se resume à culinária chinesa ou japonesa. A Índia também é oriental e tem sabores e aromas que inspiram muitas criações.

E é de lá que vem a inspiração para este prato rápido e de sabor exótico.

Foi num almoço em família, daqueles que precisam ser preparados às pressas quando todos acordam tarde e ainda há (quase) um fim de semana inteiro pela frente, que nasceu essa receita.

A base é bem conhecida, mas o toque especial fica por conta do curry, especiaria de sabor exótico que dá cor e sabor refinado a qualquer prato.

Nada é mais rápido e prático do que uma pasta cozida al dente, à moda tradicional e sem nenhum cuidado adicional. Nesse caso usei o fusilli, pasta que considero muito versátil, espacialmente útil quando não se quer adicionar molhos caudulentos.

O toque oriental está em fazer com que a macarronada saia da mesmice e conquiste paladares exigentes.

Cozida a pasta, noutra panela fritei alho e cebola com azeite. Então derreti manteiga, adicionei champignons fatiados, sal, pimenta e finalmente o curry.

Por fim acrescentei o macarrão cozido para refogar e assim ganhar a cor e o sabor dos ingredientes.

Na hora de servir o toque final ficou por conta do cheiro verde picado e salpicado.

Sabor exótico que animou a conversa e foi acompanhado de um vinho Sauvignon Blanc estupidamente gelado.

E que venha o fim de semana…

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